Um dia depois, e após horas e horas a ler, ver e ouvir toda a gente a malhar no rapaz (eu incluído), cheguei à conclusão que Cristiano Ronaldo é, de facto, o espelho do meu País. Mas enquanto o jogador depende apenas de si próprio para voltar a ser alguém, o País depende dos muitos Ronaldos que andam por aí. Ronaldo pode resolver-se sozinho (ou não); já Portugal depende de resoluções colectivas e eu não estou a ver como isso pode acontecer.
Tal como em Ronaldo, no meu País existe competência, eficácia, valor e excelência em muitos portugueses e em muita da "portugalidade" contemporânea. Mas todos eles, tal como Ronaldo, mal lhe são reconhecidos esses valores levantam a cabeça de forma arrogante, egoísta e sem consistência. E logo pedem direitos acima da média, logo esperam que lhes façam o trabalho mais duro e logo esperam não suar muito para continuar a trilhar o caminho do sucesso.
Mas tal como Portugal, Ronaldo também é meu. Não que por isso tenha que entrar em discursos de protecção bacoca. Os mesmos discursos que moldaram Ronaldo como um jovem que teima em não crescer quando tem tudo o que 90 por cento dos adultos não têm nem nunca terão.
Ronaldo também é meu e quero, por isso, que volte a ser excelente. Que volte a fazer-me levantar da cadeira para o aplaudir, para me emocionar com as nossas cores a bailar nos melhores palcos desportivos do mundo. Porque Ronaldo também é meu, exijo que ele respire estes dias o cheiro da indignação, que sinta que nada mais lhe foi exigido que o trabalho que prometeu, e que perceba que a excelência não se compra nem se molda com gabinetes de imagem ou com políticas que disfarçam falhas e perdas. E Cristiano Ronaldo, este - o que falhou -, também é produto de uma série de gente que teima em travestir verdades para se perpetuar nos poderes.
Porque Ronaldo também é meu - e porque toda a gente cresce - gostava que ele pensasse muito bem na sua atitude, na sua forma de olhar a vida, o Mundo e as pessoas, os colegas da equipa, os adversários e todos aqueles que, afinal, mais não lhe exigem que aquilo que lhe vimos um dia: a possibilidade de voltarmos a orgulhar-nos daquilo que é nosso, daquilo que somos.
Claro que há gente a passar fome e um país que definha enquanto Ronaldo convive com os seus milhões. Por isso, e porque os pode guardar e gozar (são dele e isso é sagrado!), que entõ saiba e aprenda como respeitar todos os que estão do seu lado. Do seu lado e não num patamar inferior...